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  • O descontentamento do peixe grande

    O DESCONTENTAMENTO DO PEIXE GRANDE

     

    Numa poça isolada do rio grande, vivia uma colónia de peixinhos.

    Eram muito amigos uns dos outros e reinava a paz no local. Havia, no entanto, um peixe grande e orgulhoso que estragava um pouco essa harmonia. Resmungava quando os peixinhos se aproximavam dele e queria para si tudo o que havia de melhor.

    Um dia, um dos peixinhos, numa tentativa de se libertar dele, disse ao peixe:

    - Só me admiro que não vás viver além, no rio grande! Esta poça é muito pequena para ti. Lá, terias companheiros mais distintos do que peixinhos como nós.

    O peixe meditou nas palavras do outro e convenceu-se que, de facto, estaria melhor no rio grande, cercado por peixes do seu tamanho e importância. -"Estou farto destes peixinhos!"-pensou.- "São tão ignorantes e irrequietos! Quando vierem as chuvas e as inundações, poderei sair desta poça e nadar até ao rio. Vai ser um prazer conviver com os meus semelhantes!"

    Não tardou muito que as águas das chuvas cobrissem a terra e foi fácil para o peixe nadar até ao rio. Que diferente era tudo: as rochas eram maiores, as plantas maiores também e os outros peixes...eram grandes de mais!

    Descansava um pouco ao pé de umas pedras grandes que formavam uma gruta, quando sentiu a água a mexer-se atrás de si e quatro peixes enormes se aproximaram e o empurraram para o lado, sem cerimónia nenhuma:

    - Sai daqui, peixinho! Não sabes que esta gruta está reservada para peixes como nós?!

    "Peixinho"! Ele?! De facto, a vida no rio era muito diferente. Que maus modos tinham estes peixes! Podiam tê-lo avisado doutra maneira!

    O peixe escondeu-se numas algas próximas, mas pouco tempo pôde descansar, pois dois peixes grandes, pretos e brancos, deram com ele e atacaram-no com a boca aberta e intenções evidentes de o comerem! Fugiu muito depressa, nadando com toda a sua força e teve a felicidade de conseguir introduzir-se na fenda de uma rocha antes que aqueles dentes afiados lhe mordessem. Que susto! Então, era isto a vida do rio? Era essa a convivência com peixes de importância?

    Começou a ter saudades do sossego da sua poça e da companhia dos peixinhos que, pelo menos, eram pacíficos!

    Uma mordidela pôs termo às suas reflexões. Mais uma vez, viu-se obrigado a fugir. Escondeu-se no lodo, no fundo do rio, e tomou uma decisão: voltar para a poça quanto antes!

    Foi  uma  viagem  bem   penosa,  porque  teve  de  nadar  contra  a corrente, e quantas vezes arbustos e árvores lhe impediam a passagem! Quando, finalmente, alcançou a sua poça, sentiu uma alegria e um alívio muito grandes. No final de contas, que bonita  que era e que bem que se estava ali!

    Os peixinhos concordaram entre si que a viagem tinha feito bem ao peixe grande; já não resmungava tanto e estava sempre pronto para contar as aventuras no rio, o que os divertia muito.

     

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  • O coelhinho branco e a formiga rabiga

    O COELHINHO BRANCO

     

    Era uma vez um coelhinho

    que foi à sua horta

    buscarcouves p´ra fazer um caldinho.

    Quando o coelhinho branco voltou para casa depois de vir da horta, chegou à porta e achou-a fechada por dentro; bateu e perguntaram-lhe de dentro: -"Quem é?" O coelhinho respondeu:

    Sou eu, o coelhinho que venho da horta

    e vou fazer um caldinho.

    Responderam-lhe de dentro:

    E eu sou a cabra cabrez que te salto em  cima e te faço em três.

    Foi-se o coelhinho por aí fora muito triste, e encontrou um boi e disse-lhe:

    Eu sou o coelhinho que tinha ido à horta e ia para casa

    fazer o caldinho; mas quando lá cheguei

    encontrei a cabra cabrez, que me salta em cima

    e me faz em três.

    Responde o boi: - "Eu não vou lá que tenho medo". Foi o coelhinho andando e encontrou um cão e disse-lhe:

    Eu sou o coelhinho que tinha ido à horta e ia para casa

    fazer o caldinho; mas quando lá cheguei

    encontrei a cabra cabrez, que me salta em cima

    e me faz em três.

    Responde o cão: -"Eu não vou lá que tenho medo." Foi mais adiante o coelhinho e encontrou um galo, a quem disse também:

    Eu sou o coelhinho

    que tinha ido à horta e ia para casa

    fazer o caldinho; mas quando lá cheguei

    encontrei a cabra cabrez, que me salta em cima

    e me faz em três.

    Responde o galo: - "Eu não vou lá que tenho medo. " Foi-se o coelhinho muito mais triste, já sem esperanças de poder voltar para casa, quando encontrou uma formiga que lhe perguntou: -"Que tens coelhinho?"

    Eu vinha da horta e ia para casa fazer o caldinho;

    mas quando lá cheguei encontrei a cabra cabrez, que me salta em cima

    e me faz em três.

    Responde a formiga: -"Eu vou lá e veremos como isso há de ser". Foram ambos e bateram à porta; diz-lhe a cabra cabrez lá de dentro:

     Aqui ninguém entra está cá a cabra cabrez que lhes salta em cima e os faz em três.

    Responde a formiga:

    Eu sou a formiga rabiga, que te tiro as tripas

    e furo a barriga.

     

    Dito isto, a formiga entrou pelo buraco da fechadura, assustou a cabra cabrez que fugiu; abriu a porta ao coelhinho; foram fazer o caldinho, e ficaram vivendo juntos, o coelhinho branco e a formiga rabiga.

     
       

     

    ADOLFO COELHO

    In:  Histórias Tradicionais, 1988 ,ME.

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  • O patinho feio

    O Patinho Feio

    Estava muito agradável no campo. O ar rescendia a Verão; o milho estava amarelo; a aveia estava pronta a ser ceifada; as medas de feno nos prados pareciam pequenas colinas de erva e a cegonha passeava por cima delas com as suas longas pernas vermelhas. A toda a volta dos campos havia bosques e florestas com fundos lagos de água fresca. Sim, estava mesmo muito agradável no campo. E, brilhando ao sol, podia ver-se uma velha mansão rodeada por um fosso. Grandes folhas de azedas cresciam nas paredes até à água; algumas eram tão grandes que uma criança podia ficar de pé debaixo delas. À sombra podia-se até pensar que se estava numa florestazinha secreta e primitiva.

    Era aí que uma pata chocava os seus ovos no ninho. Porém, já estava a ficar bastante farta, porque os patinhos nunca mais apareciam; quanto a visitas, quase não as tinha; os outros patos preferiam nadar no fosso a ir ter com ela debaixo das grandes folhas para conversar.

    Por fim, os ovos começaram a estalar, um a seguir ao outro.

    — Pip, pip!

    O ninho ficou cheio de avezinhas que deitavam as cabeças fora das cascas.

    — Quac, quac! — disse a mãe. — Depressa, depressa! E as criaturinhas saíram o mais depressa que puderam e olharam à sua volta, no abrigo de folhas verdes; e a mãe deixou-as olhar à vontade, porque o verde faz bem aos olhos.

    — Como o mundo é grande! — disseram os pequenos.

    É claro que agora tinham muito mais espaço do que dentro dos ovos.

    — Pensam que o mundo é só isto, seus patetas? — perguntou a mãe. — Ora! O mundo estende-se muito para além do outro lado do jardim, mesmo até ao campo do vigário. Embora, verdade seja dita, eu nunca tenha lá estado. Já cá estão todos, não estão? — Levantou-se do ninho. — Não, tu ainda não. Ainda falta o ovo maior. Quanto tempo demorará ainda? Estou mesmo farta disto, se querem saber.

    E lá tornou a deitar-se.


    — Bem, que tal vão as coisas? — perguntou uma velha pata que veio visitá-la.

    — Este ovo está a demorar um tempo horrível — disse a mãe pata. — Não há meio de estalar! Mas olhe para os outros! São os patinhos mais bonitos que já vi, tal e qual o pai, aquela peste, que nunca vem visitar-me!

    — Deixe lá ver o ovo — disse a velha pata. — Ah! Acredite no que lhe digo, isso é um ovo de peru. Uma vez aconteceu-me a mesma coisa e nem calcula o trabalho que tive com os miúdos! Como eram perus, tinham medo da água, e não consegui metê-los lá. Deixe ver. É, é um ovo de peru. Deixe-o ficar e vá ensinar os outros a nadar.

    — Bem, vou aguentar um pouco mais — respondeu a pata. — Já aqui estou há tanto tempo que mais vale acabar o trabalho.

    — Está bem, faça como quiser — respondeu a velha pata, e foi-se embora.

    Por fim, o grande ovo estalou.

    —Pip, pip! — disse o jovem, saindo cá para fora.

    Mas que grande e que feio que ele era! A mãe olhou para ele.

    — Que grande patinho! — pensou. — Será mesmo um peru? Bem, já vamos ver; há-de ir para a água, nem que eu tenha de o empurrar.

    No dia seguinte, o tempo estava lindo, e a mãe pata saiu com todos os filhos e desceu até ao fosso, onde mergulhou.

    — Quac, quac! — chamou ela.

    E, um atrás do outro, os patinhos saltaram para a água. Ficaram com as cabeças debaixo de água, mas vieram logo à tona, e em breve nadavam afanosamente. As suas patinhas mexiam-se naturalmente, e lá estavam todos — até o feio cinzento nadava com os outros.

    — Não, isto não é um peru! — exclamou a mãe. — Que bem que ele usa as patas e que direito que nada. É meu filho, isso não há dúvida. Realmente, é bem bonito, se virmos bem. Quac, quac! Venham comigo, meninos; venham conhecer o mundo e as outras aves da quinta; mas fiquem perto de mim, para ninguém os pisar. E cuidado com o gato!


    E lá foram para o pátio da quinta. Aí havia um barulho horrível e grande agitação, porque duas famílias discutiam por causa da cabeça de uma enguia — e afinal quem a apanhou foi o gato.

    — O mundo é assim — disse a mãe pata.

    Ficou com água no bico, porque também ela teria gostado de apanhar a cabeça da enguia.

    — Vá, usem as pernas; despachem-se e façam uma vénia à velha pata que está ali! E a pessoa mais importante da quinta; os antepassados dela vieram da Espanha e, como vêem, tem um pedacinho de pano vermelho atado a uma pata. Isso é uma coisa muito especial: significa que ninguém a pode matar e que tanto os homens como os animais têm de a tratar com respeito. Venham! Não metam os pés para dentro! Um patinho bem educado anda com os pés bem afastados, como o pai e a mãe. Vá! Façam uma vénia e digam: «Quac!».

    Os patinhos fizeram o que ela lhes disse, mas os outros patos do pátio olharam para eles e disseram em voz alta:

    — Lá vamos ter de aturar estes, como se já não fôssemos bastantes! E, meu Deus!, que patinho tão esquisito aquele! Não o queremos com certeza por aqui.

    E um pato esvoaçou em direcção ao patinho cinzento e deu-lhe uma bicada no pescoço.

    — Deixa-o em paz — disse a mãe. — Ele não está a incomodar ninguém.

    — Pois não, mas é muito grande e tem um ar esquisito — respondeu o pato que o tinha bicado. —Tem de ser metido na ordem.

    — Bela família — comentou a velha pata com o paninho vermelho à volta da perna. — Os patinhos são todos bonitos, excepto aquele, não pode ser. Se ao menos a mãe pudesse tornar a fazê-lo!

    — Isso é impossível, Vossa Senhoria — disse a mãe pata. — É verdade que não é bonito, mas tem bom feitio e nada tão bem como os outros. Atrevo-me até a dizer que, quando for crescido, é capaz de vir a ser mais bonito e talvez, com o tempo, um pouco mais pequeno. Ficou tempo de mais dentro do ovo e foi isso que lhe estragou o aspecto. — Ajeitou-lhe a penugem do pescoço e alisou-lhe uma penita ou outra. — Além disso — acrescentou —, é um pato, por isso não tem muita importância se é bonito ou feio. É saudável, tenho a certeza, e há-de vingar neste mundo.

    — Seja como for, os outros patinhos são encantadores — retorquiu a velha pata. — Bom, estejam à vontade, e se encontrarem uma cabeça de enguia podem trazer-ma.

    Isto foi o primeiro dia; depois, a sina do patinho cinzento piorou. Que infeliz se sentia por ser tão feio! Era perseguido por todos. Os patos tentavam dar-lhe bicadas; as galinhas também; e a rapariga que dava de comer aos animais empurrava-o com o pé. Até os irmãos e as irmãs estavam contra ele e diziam:

    — Feio! Era bem feito que o gato te apanhasse!

    A mãe também dizia em voz baixa:

    — Quem me dera que estivesses longe...


    E então ele foi-se embora. Primeiro, voou por cima da sebe — e os passarinhos nos arbustos voaram alarmados.

    «É por eu ser tão feio», pensou o patinho, fechando os olhos.

    Mas continuou o seu caminho. Por fim, chegou aos charcos onde vivem os patos bravos e ficou lá deitado toda a noite, porque estava muito cansado e triste.

    De manhã, os patos bravos apareceram e observaram o seu novo companheiro.

    — Que espécie de criatura és tu? — perguntaram.

    O patinho virou-se para cada um e cumprimentou-os o mais amavelmente que pôde.

    — És mesmo feio, lá isso és! — disse um pato bravo. — Mas isso pouco importa, desde que não cases com nenhuma das nossas filhas.

    Pobrezinho do patinho. A ideia de casar nem sequer lhe tinha vindo à cabeça. Tudo o que queria era deitar-se e descansar nos juncos e beber um pouco da água do charco.

    Ali ficou durante dois dias, até que apareceram dois gansos selvagens — dois jovens machos. Também tinham nascido há pouco, mas eram muito vivos e descarados.

    — Olá, amigo — disseram. — És tão feio que gostamos de ti. Que tal vires connosco quando voarmos para mais longe? Num charco perto daqui há umas lindas gansas, belas raparigas, com um «quac!» que vale a pena ouvir. Com o teu aspecto esquisito pode ser que tenhas sorte com elas.

    Nesse momento ouviu-se «bang!, bang!» e ambos os alegres gansos caíram mortos nos juncos. A água ficou vermelha de sangue. Outra vez «bang!, bang!» — e um bando de gansos selvagens levantou voo dos juncos. Era uma grande caçada. Os desportistas estavam a toda a volta do charco; alguns estavam mesmo empoleirados nas árvores. Fumo azul subia como nuvens dentro e fora dos ramos escuros e ficava a pairar sobre a água. Os cães faziam tchac!, tchac!, pela lama, esmagando os juncos. O pobre patinho estava aterrorizado; quando tentava precisamente esconder a cabeça debaixo da asa um cão enorme e assustador parou em frente dele com a língua de fora e os olhos a brilharem de uma maneira horrível. Encostou o focinho ao patinho, arreganhou os dentes aguçados e depois — tchac!, foi-se embora sem lhe tocar.

    — Oh, graças a Deus! — suspirou o patinho. — Sou tão feio que até o cão pensa duas vezes antes de me morder. E ficou muito quieto enquanto ouvia os tiros, um após outro, guincharem e troarem pelos juncos. O dia já ia longo quando o barulho parou; mas a pobre criatura nem então se atreveu a mexer-se. Por fim, levantou a cabeça, espreitou cautelosamente em redor e apressou-se a fugir do charco tão depressa quanto pôde. Correu por campos e prados, mas o vento soprava tão forte contra ele que era difícil avançar.


    Perto da noite, chegou a um casinhoto miserável; estava em tal estado que nem sabia para que lado havia de cair, de modo que continuava de pé. O vento soprava com tanta força que o patinho teve de se sentar para não ser levado por ele, mas o vento parecia ficar cada vez mais forte. Então notou que a porta já não tinha uma dobradiça e estava pendurada de tal modo que ele conseguia esgueirar-se lá para dentro, e foi isso mesmo que fez.

    No casinhoto vivia uma velhota com um gato e uma galinha. O gato, a quem ela chamava Filhinho, sabia arquear as costas e fazer ronrom; também fazia faíscas, mas só quando lhe faziam festas ao contrário. A galinha tinha umas pernitas curtas e por isso chamava-se Pinta-Pernas-Curtas. Punha muitos ovos, e a velhota gostava dela como se fosse sua filha.

    Quando amanheceu, repararam logo no estranho pequeno visitante. O gato começou a fazer ronrom, e a galinha a cacarejar.

    — O que é que aconteceu? — perguntou a velhota, olhando a toda a volta.

    Mas já não via muito bem, de modo que tomou o pequeno recém-chegado por uma pata adulta.

    — Ora isto é que é sorte! — exclamou ela. — Agora vou ter ovos de pata... desde que não seja um pato. Bem, veremos...

    E o patinho ficou à experiência durante três semanas, mas não apareceram ovos.

    O gato era o senhor da casa, e a galinha a senhora. Passavam a vida a dizer «Nós e o mundo...», porque pensavam que eram metade do mundo e, claro, a metade melhor. O patinho achava que podia haver outras opiniões sobre o assunto, mas a galinha não queria ouvir falar nisso.

    — Sabes pôr ovos? — perguntou. — Não? Então, faz o favor de guardar as tuas opiniões para ti próprio!

    O gato perguntou:

    — Sabes arquear as costas e fazer ronrom ou soltar faíscas? Não? Então o melhor que tens a fazer é ficares calado quando as pessoas sensatas estão a falar.

    De maneira que o patinho se sentava a um canto e aborrecia-se. Vinham-lhe à ideia pensamentos sobre o ar livre e o sol, e depois uma saudade extraordinária de flutuar na água. Por fim, não pôde deixar de falar nisso à galinha.

    — Que ideia tão disparatada! — exclamou ela. — O teu mal é não teres nada que fazer; por isso é que tens essas fantasias. Põe mas é uns ovos ou tenta fazer ronrom que isso passa-te.

    — Mas é tão delicioso flutuar na água — disse o patinho. — É tão bom baixar a cabeça e mergulhar até ao fundo!

    Deve ser óptimo! — disse a galinha sarcasticamente. — Não deves estar bom da cabeça! Pergunta ao gato, que é a pessoa mais inteligente que conheço, se ele gosta de flutuar na água ou de mergulhar até ao fundo. Não faças caso da minha opinião; pergunta à nossa dona, a velhota: não há ninguém mais sábio no mundo inteiro. Achas que ela quer flutuar ou meter a cabeça dentro de água?

    — Não compreendes... — disse o patinho tristemente.

    — Bem, se nós não te compreendemos, ninguém compreenderá. Nunca saberás tanto como o gato ou a velhota, para já não falar de mim. Não tenhas peneiras, miúdo, e agradece as coisas boas que te têm acontecido. Não encontraste um quarto quente e companheiros elegantes, com quem podes aprender muito se prestares atenção? Mas tu só dizes disparates; nem sequer és uma companhia alegre. Acredita que o que te digo é para teu bem. Vá, faz um esforço e põe uns ovos ou, pelo menos, aprende a fazer ronrom e a deitar faíscas.

    — Acho que o melhor é ir por esse mundo fora — respondeu o patinho.

    — Então vai — exclamou a galinha.


    E o patinho lá foi. Boiou na água e mergulhou; mas parecia-lhe que os outros patos não faziam caso dele por ele ser feio.

    Até que chegou o Outono: as folhas do bosque ficaram castanhas e amarelas; o vento apanhava-as e fazia-as rodopiar como loucas; até o céu parecia gelado; as nuvens pairavam, pesadas com granizo e neve, e o corvo, empoleirado numa sebe, gritava «crá, crá» por causa do frio. Só de olhar para aquilo ficava-se logo a tremer. Foi um tempo difícil também para o patinho.

    Uma tarde, com o céu avermelhado pelo pôr do Sol, um bando de grandes aves maravilhosas ergueu-se dos juncos. O patinho nunca tinha visto aves tão belas. Eram de um branco brilhante, com longos pescoços graciosos — na verdade, eram cisnes. Emitindo um estranho som, abriram as esplêndidas asas e voaram para longe, para terras mais quentes e lagos que não gelavam. Voaram até bem alto e o patinho feio ficou muito excitado; andava à roda, à roda, na água, e chamou-os com uma voz tão alta e estranha que até ele próprio se assustou. Oh, nunca esqueceria aquelas aves maravilhosas, aquelas aves felizes! Assim que a última desapareceu, mergulhou mesmo até ao fundo e, quando voltou de novo à superfície, estava excitadíssimo. Não sabia como se chamavam as aves; não sabia de onde tinham vindo nem para onde voavam — mas sentia-se mais atraído por elas do que por qualquer outra coisa.

    No Inverno ficou ainda mais frio. O patinho tinha de nadar às voltas na água para esta não gelar, mas cada noite a parte sem gelo se tornava mais pequena. Depois, tinha de bater com os pés a toda a hora, para quebrar a superfície; por fim, acabou por ficar estafado. Parou e depressa gelou completamente.


    De manhã cedo apareceu um camponês. Vendo a ave, foi até lá, partiu o gelo com os socos de madeira e levou-a para casa, para a mulher. Pouco tempo depois, o patinho reanimou-se. As crianças queriam brincar com ele, mas ele julgava que queriam fazer-lhe mal e, assustado, voou para dentro da selha do leite. O leite salpicou a sala toda; a mulher deu um grito e deitou as mãos à cabeça; depois, o patinho voou para dentro da cuba da manteiga, depois para o barril da farinha, e depois saiu. Meu Deus, que espectáculo! A mulher, ainda aos gritos, atirou-lhe o atiçador da lareira; as crianças, rindo e guinchando, caíam umas por cima das outras, tentando apanhar o patinho. Felizmente, a porta estava aberta; lá foi ele a correr para os arbustos e para a neve recém-caída e aí ficou meio entontecido.

    Mas seria demasiado triste contar-vos todas as dificuldades e infelicidades por que ele teve de passar durante aquele Inverno cruel. Um dia, estava a tentar aconchegar-se entre os juncos do charco quando o Sol começou a enviar novamente raios quentes; as cotovias cantavam; que maravilha! Tinha chegado a Primavera. O patinho ergueu as asas. Pareciam mais fortes do que antes, e levaram-no velozmente para longe; antes de perceber o que estava a acontecer, encontrou-se num lindo jardim cheio de macieiras em flor, com lilases perfumados que pendiam dos seus longos ramos mesmo até um riacho sinuoso. E então, mesmo em frente dele, saindo das sombras das folhas, apareceram três magníficos cisnes brancos, agitando as penas enquanto deslizavam pela água. O patinho reconheceu as maravilhosas aves e sentiu uma estranha tristeza.

    — Vou voar até àquelas nobres aves, mesmo que me matem à bicada por me atrever a aproximar-me, feio como sou. Mas não me importo... é melhor ser morto por umas criaturas tão esplêndidas do que apanhar bicadas de patos e galinhas e pontapés da rapariga da quinta ou ter de aguentar outro Inverno como o último.


    Voou para a água e nadou em direcção aos magníficos cisnes. Estes viram-no e vieram ter com ele a toda a velocidade, agitando a plumagem.

    —Vá, matem-me — disse o pobre patinho curvando a cabeça mesmo até à água enquanto esperava pelo fim.

    Mas o que é que viu ele reflectido em baixo? Observou-se bem — já não era uma desajeitada ave feia e cinzenta. Era igual às orgulhosas aves brancas ali ao pé: era um cisne!

    Não interessa nascer num terreiro de patos quando se sai de um ovo de cisne.

    Sentiu-se feliz por ter sofrido tantas dificuldades, porque agora dava valor à sua boa sorte e ao lar que finalmente tinha encontrado. Os majestosos cisnes nadaram à sua volta e acariciaram-no com admiração com os bicos. Umas criancinhas apareceram no jardim e atiraram pão para a água e a mais pequenina gritou alegremente:

    — Há mais um!

    E as outras disseram, encantadas:

    — E verdade, apareceu mais um cisne!

    Bateram palmas e dançaram de contentamento; depois foram a correr contar aos pais. Deitaram mais pão e bolo para a água e todos disseram:

    — O novo é o mais bonito de todos. Olhem que belo que é, aquele novo!

    E os cisnes mais velhos curvaram as cabeças diante dele.

    Ele sentia-se muito envergonhado e escondeu a cabeça debaixo de uma asa; não sabia o que fazer. Estava quase feliz de mais, porque um bom coração nunca é orgulhoso nem vaidoso. Lembrava-se dos tempos em que tinha sido perseguido e desprezado, e agora ouvia toda a gente dizer que era a mais bela de todas aquelas maravilhosas aves brancas. Os lilases curvaram os ramos até à água para o saudarem; o Sol enviou o seu calor amigo, e a jovem ave, com o coração cheio de alegria, agitou as penas, ergueu o pescoço esguio e exclamou:

    — Nunca pensei que alguma vez pudesse sentir tamanha felicidade quando era o patinho feio!

    Hans Christian Andersen 

    Texto recolhido em http://guida.querido.net

     

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  • Os três Porquinhos

    Era uma vez três porquinhos. Eles eram alegres. O mais novo adorava brincar, o segundo era músico e o mais velho era muito trabalhador.

    Um dia, percebendo que o dono da fazenda iria vender seus filhotes, a dona Porca juntou suas economias, dividiu-as entre os três porquinhos e os aconselhou a ir morar longe da fazenda.
    O porquinho mais novo comprou palha e construiu sua casinha. A palha era muito barata e ele poderia comprar muitos brinquedos com o que sobrasse do dinheiro.
    O segundo porquinho resolveu construir uma casinha de madeira, porque era mais rápido de construir e ele logo poderia voltar a dedicar-se às suas músicas. Desta forma, ele passava os dias tocando e cantando.

    O terceiro porquinho, que era muito esperto e trabalhador, fez sua casinha de tijolos. Ele gastou todo o seu dinheirinho, mas construiu uma casa resistente e muito bonita.

    Algum tempo depois, um lobo muito malvado se mudou para aquela região.
    Quando ele soube que a li moravam três porquinhos, resolveu procurá-los.
    O lobo já estava cansado de comer frutinhas da floresta. Ele queria achar as casas dos porquinhos, porque queria comer leitão assado.

    Ele procurou e achou a casinha de palha. Bateu na porta:
          – Abra esta porta senão derrubo sua casa.

    Como o porquinho não abriu, o lobo estufou o peito e soprou. A casinha foi para os ares.
    O porquinho saiu correndo pela floresta e foi se esconder na casinha de madeira de seu irmão. O lobo foi correndo atras dele.
    Chegando na casinha de madeira, o lobo novamente pediu que abrissem a porta:
          – Abra esta porta senão derrubo sua casa.
    Como os porquinhos não fizeram isso, ele soprou com força e derrubou a casinha.
    Os porquinhos correram para a casa de tijolos e, quando chegaram, contaram tudo para o irmão. Como este era muito esperto, trancou todas as portas e janelas e colocou um caldeirão de água a ferver na lareira.
    O lobo chegou até a casinha minutos depois. Bateu na porta e como ninguém respondeu, ele estufou o peito e soprou. A casinha continuou como estava. O lobo continuou soprando até cair exausto no chão.
    Descansou um pouco e ficou pensando como faria para entrar. Tentou derrubar a porta, mas esta estava muito bem trancada. Forçou as janelas e também não conseguiu abrir.
    O lobo estava ficando furioso, quando teve uma ideia!
           – Vou descer pela chaminé — pensou ele, já sentindo o gostinho da vitória.
    Subiu no telhado e foi descendo pela chaminé.
    Quando estava caindo, começou a sentir um calor muito grande até cair dentro do caldeirão de água fervendo. Ele saiu correndo, todo queimado pela água quente.
    O lobo ficou com tanta vergonha, que se mudou para um lugar muito distante, e nunca mais se teve notícias dele.
    Os três irmãozinhos decidiram morar juntos na mesma casinha de tijolos. Mais tarde, buscaram sua mãe para viver com eles e foram felizes para sempre.

    Os 3 porquinhos versão Brasileira      Os 3 porquinhos versão curta Zon Kids Portugal

     

     
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  • O Corcunda de Notre Dame

    O Corcunda de Notre Dame

     

     Era uma vez, na cidade de Paris, um rapaz que vivia no campanário da Catedral de Notre-Dame.

    Ele era forte o bastante para tocar os gigantescos sinos da igreja. Mas também era tão delicado, que até mesmo podia segurar um passarinho nas mãos.

    Suas únicas amigas eram três gárgulas. Elas não se importavam com a aparência deformada do rapaz.

     O cruel amo dele, o juíz Frollo, porém chamava-o de Quasimodo, nome que significa "mal-acabado".

    Quasimodo tinha muita vontade de conhecer o mundo. Mas Frollo o proibira de sair do campanário.

    A tristeza maior de Quasimodo é que Frollo dizia que as pessoas iam odiá-lo porque ele era um monstro.

    Todos os anos celebrava-se o Festival dos Tolos.

    No festival, encorajado pelas amigas gárgulas, Quasimodo viu uma dançarina cigana chamada Esmeralda. Ele nunca tinha visto uma criatura tão linda!

     Nem o capitão Febo o mais novo soldado a serviço de Frollo, conhecera alguém de tal formosura.

    Quasimodo, sem perceber foi puxado para o palco e coroado Rei dos Tolos.

    A multidão o aplaudiu e foi exibí-lo pelas ruas.

     De repente começaram a zombar dele, exatamente como Frollo havia previsto. Quasimodo foi amarrado com cordas para que não fugisse.

    Pediu ajuda a Frollo, mas ele não moveu um dedo.

    A bondosa Esmeralda libertou Quasimodo.

    Frollo ordenou que prendessem a cigana. Esmeralda conseguiu fugir com seu cabrito Djali e se escondeu na Catedral de Notre-Dame.

    Quasimodo estava confuso com toda aquela situação, mas resolveu ajudá-la a fugir.

    Ao saber da fuga da cigana Frollo ficara furioso, ferindo gravemente Febo por não querer perseguir os ciganos.

    Quasimodo percebeu que ela amava o bravo soldado e concordou em esconder Febo no campanário.

    Mas foi inevitável, Frollo encontrou a Corte dos milagres, onde os ciganos se escondiam e conseguiu apanhar todos eles.

    Acorrentado no alto da catedral, Quasimodo percebe que Esmeralda está em perigo. Então se libertou, puxando as correntes com tamanha força, que a torre da catedral estremeceu, os sinos tocaram e as pedras racharam. Depois desceu pelos muros para salvar Esmeralda, trazendo-a sã e salva à catedral.

    Quasimodo e suas amigas as gárgulas também ajudaram a defender a catedral do ataque de Frollo e seus homens.

    Desse modo, o terrível Frollo foi enfim derrotado.

    Quasimodo ouviu a multidão festejar:

    - Viva Quasimodo!

    E assim, ele compreendeu que não era nenhum monstro.

    Para o povo de Paris, Quasimodo era um grande herói! 

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